Minha gratidão ao Ahmad Harb
Em 2016, fiz um filme no maior campo de refugiados sírio do mundo na Jordânia. Fazer um filme do outro lado do mundo é por si só uma experiência transformadora, em um campo de refugiados, a vivência é outra.
Em 2016, fiz um filme no maior campo de refugiados sírio do mundo na Jordânia. Fazer um filme do outro lado do mundo é por si só uma experiência transformadora, em um campo de refugiados, a vivência é outra.
Esse campo se chama Zaatari e fica na Jordânia, há 12 km da fronteira com a Síria. A Guerra na Síria começou entre Janeiro e Março de 2011 com protestos antigoverno e a partir de julho de 2012, a ONU, em parceria com o governo da Jordânia e diversas ONGs, começou a receber sírios que fugiam da Guerra com suas famílias para o Campo de Zaatari.
No início de 2014, eu recebi um email sobre o campo de um amigo que trabalhava na UNOPS, empresa que é o braço de projetos da ONU. Respondi o email com uma afirmacão, quero fazer um filme aí. Criei o projeto e em 2015, fizemos o desenvolvimento, a pesquisa de personagens no campo e em 2016, estávamos com nossa equipe na Jordânia pra filmar as histórias que havíamos selecionado.
Em um campo de refugiados, todas as histórias são fortes, diante da tragédia de uma Guerra é praticamente impossível ter uma história que seja leve, no mínimo as pessoas perderam sua casa, sua pátria, sua identidade, seus trabalhos, pessoas queridas, em uma sucessão de perdas difícil de reconstruir adiante.
Uma coisa chocante que apareceu logo no início da nossa pesquisa foi a seguinte questão: diante de uma Guerra, se houver a necessidade de fugir de algo com urgência, o que é válido levar? Um homem nos disse que a coisa mais valiosa era seu diploma, foi o único bem que ele levou em sua fuga. A partir daí eu vi que não seria uma experiência corriqueira.
Vou escolher uma das histórias do filme pra contar. Minha experiência nessa história se confunde com o próprio filme, eu criei o projeto, produzi e juntei todas as pessoas que me ajudaram a conceber e colocar esse projeto de pé. Uma trajetória de muitas conversas pra vender esse sonho e fazer com que essas pessoas chave embarcassem comigo nessa viagem.
Pra selecionar os personagens do filme, nós contratamos uma jornalista úngara que já havia morado em Zaatari como volutária em uma das diversas ONGs que trabalham no Campo. Além da Timea, essa úngara, também contratamos uma jovem Jordaniana, a Leen Qashu, nossa tradutora, ela falava inglês perfeitamente, pois havia feito faculdade em Londres e falava árabe, sua língua nativa. As duas e um motorista eram nossa equipe de pesquisa. Recebi os relatórios, e ao longo de 3 meses, fomos selecionando as histórias.
A história do Ahmad logo me chamou atenção. Ele vinha de uma família onde dos 7 irmãos, 5 tinham uma deficiência, uma dificuldade de se locomover que aparecia na infância, deficiência que os colocava em uma cadeira de rodas, e depois de algum exercício, eles conseguiam andar com a ajuda de muletas.
Ahmad chegou em Zaatari em 2013, com a esposa e os 2 filhos, um com 3 anos, portador da mesma deficiência que o pai e um bebê de apenas 40 dias.
Um carro havia deixado eles na fronteira que separa Daara da Jordânia. A mulher de Ahmad conta no filme que ela carregou o filho de 40 dias “como uma gata carrega seus filhotes de um local pro outro.” Olhando o esforço da mulher carregando a família que usava muletas, a polícia jordaniana resolveu ajudar.
Na Síria, Ahmad trabalhava em Damasco em uma fábrica de distribuição de cosméticos. Por sua paixão pelo teatro, ele havia estudado dramaturgia por um tempo lá. Quando chegou em Zaatari Ahmad conta que a primeira decisão que tomou foi esquecer todo o passado e começar do zero. Essas lembranças não o beneficiavam.
Em seguida, teve a oportunidade de ensinar teatro no campo e ressignificar sua história. Assim escolhemos o nosso personagem “dramaturgo”, ele montaria uma peça de Shakespeare, “A Tempestade", com seus alunos ao longo do nosso filme.
Bom, eu e um coprodutor fomos pra Jordânina fazer diversas reuniões com pessoas que nos deram acesso ao campo. Fiz reuniões com o governo da Jordânia, com o embaixador do Brasil, almoçamos com o Consul, com o prefeito do Campo, ou seja, como produtora do filme eu precisava garantir que nossos acessos estavam de pé.
No primeiro dia que eu visitei o campo foi uma experiência tão intensa que a noite eu não consegui dormir. Nesse dia fomos ao galpão da ONG IRD, lá o filho mais velho do Ahmad cantou uma música pra nossa equipe sentado em sua cadeira de rodas. Ahmad, nos comprimentou, nós conversamos com a ajuda do nosso tradutor e ele me olhava com muita gratidão. Tanto pra mim como pra toda a nossa equipe que tinha saído do Brasil pra ir fazer um filme em Zaatari.
Nesse dia, fomos também conhecer a barbearia do Jalkhdar, ele também era um dos protagonistas do filme. Dentro da barbearia fizemos uma roda e eles cantaram diversas músicas pra gente ao som de um violão árabe. Enquanto a gente escutava a música, um narguilê passava de mão em mão, ou de boca em boca pra que todos fumassem.
Passei 15 dias na Jordânia. Fomos a casa do Ahmad, conhecemos sua esposa, seu filho do meio, nosso anfitrião no primeiro encontro e o filho mais novo do Ahmad, o Kalhed. Ele não nasceu com o problema de locomoção que aparece em quase todos da familia.
Em uma das cenas do filme, Kalehd está com o pai de carona em seu triciclo motorizado. Nossa camera acompanha o passeio deles pelo campo. Kalehd comenta com o pai que quer comprar sorvetes para nossa equipe. Depois o pai pergunta se ele tinha vontade de ir pro Canadá, Kalhed responde que sim, que quer falar inglês. Kalhed pergunta se o irmão voltará a andar no Canadá e Ahmad responde que acha que sim.
O contato com essa família me tocou de uma forma diferente. Eu via no olhar do Ahmad e de sua esposa um resiliência incrível, uma força pra cuidar dos filhos. Algo muito desafiador, eles estavam ajudando o filho mais velho a andar e se livrar da cadeira de rodas e ensinando o Kalehd a sonhar, tudo isso em um “não lugar”. Um campo de refugiados é um lugar onde as ruas não tem nome, uma espécie de limbo. Não é possível voltar pro seu país e eles sabem que não são bemvindos na Europa.
A família do Ahmad era uma família de Damasco que poderia estar morando em qualquer lugar do mundo.
No ultimo dia de campo, eu e o Fernando, meu coprodutor no filme, encontramos o Ahmad pela última vez. Nos despedimos dele, agradecemos a confiança, a participação dele e da família no filme e ele se guiu com seu triciclo e foi em uma direção contraria a nossa. Não sei que tipo de visão eu e Fernando tivemos mas ficamos olhando pra ele até que ele desaparecesse pelo campo. No instante que nós nos olhamos depois dessa cena, começamos a chorar sem nenhuma explicação, simultaneamente. Não sei explicar o que houve. O Fernando só disse, vamos andar, vamos andar até a gente se refazer.
O filme foi exibido na França, na Alemanha e no Brasil. O tempo passou e eu sempre mando uma mensagem pra eles, quero saber se estão bem, afinal eles estão há 1 botão de Whatsapp.
Há uns 3 meses, o Ahmad me mandou uma mensagem positiva e no final, fez um pedido de ajuda sutil. Ele me perguntou se eu conhecia alguém no Canada, pq ele gostaria de se mudar com a família para o Canadá. No automático eu disse que não tinha como ajudá-lo, que não sabia como ajudar.
Ele me explicou que haviam 2 maneiras de imigrar com a família pro Canadá. O governo canadense estava aceitando refugiados e o irmão dele mais velho já estava lá. Por sorte, esse irmão havia sido sorteado para morar no Canadá pela UNHCR, a agência de refugiados da ONU.
Eu disse pro Ahmad, não sei se vou conseguir, mas vou tentar! Eu já consegui 1 canadense que se dispôs a ajudar, mas ainda preciso de outros 4.